A (AUTO) PERCEPÇÃO DAS DESORDENS VOCAIS EM DOCENTES DA FACULDADE SANTA TEREZINHA/CEST
ANA MARIA PINHEIRO GONÇALVES1
JUAREZ BELMIRO MORAES JUNIOR2
RESUMO
A voz é muito mais do que um som, carrega informações, emoções e características pessoais, fazendo-se presente nos processos de socialização como um dos componentes da linguagem oral e da relação interpessoal, que produz impactos na qualidade de vida dos sujeitos. O presente estudo teve como objetivo analisar a auto-percepção do impacto causado pela voz no trabalho de docentes da Faculdade Santa Terezinha/CEST. Foram estudados 21 professores de ambos os sexos, utilizando-se o protocolo Perfil de Participação e Atividades Vocais (PPAV), desenvolvido por Ma e YU (2001), traduzido e validado para o português por Behlau e Oliveira (2007). Neste estudo o impacto foi categorizado em positivo, negativo ou neutro em função da pontuação alcançada, respectivamente, menor, maior ou igual a 5. Os dados foram analisados determinando-se os escores médios para os diversos aspectos do questionário e em relação a pontuação de limitação de atividades (PLA) e a de restrição de participação (PRP). De acordo com a categorização proposta, 88,1% dos profissionais que definiram o impacto vocal sobre o trabalho como positivo, no entanto, os dados demonstram a necessidade que os docentes da Faculdade Santa Terezinha/CEST têm de desenvolver um maior grau de consciência sobre suas vozes e sua utilização na sala de aula, haja vista a pouca relevância destinada a este aspecto de sua carreira, que pode, secundariamente, tornar-se um dos fatores de sucesso na docência.
PALAVRAS-CHAVE: voz; voz profissional; voz do professor.
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1 Fonoaudióloga, Graduada pela Faculdade Santa Terezinha-CEST/MA.
2 Fonoaudiólogo, Graduado pela Faculdade Santa Terezinha-CEST/MA; Especializando em Motricidade Orofacial com enfoque em Fonoaudiologia Hospitalar pela ESAMAZ/PA; Pesquisador do Projeto Educação Vocal para Professores São Luís/2008; Atuante nas áreas de Disfagia e Voz em Consultório Particular e Atendimento Domiciliar; Livre Docente na área de Voz.
INTRODUÇÃO
A voz é muito mais do que um som, carrega informações, emoções, características pessoais, jeito de ser e, principalmente, é transformadora. Além de tudo isso, ela se faz presente nos processos de socialização humana como um dos componentes da linguagem oral e da relação interpessoal, produzindo impactos na qualidade de vida dos sujeitos.
Segundo Valle (1996 apud NASCIMENTO e DOS ANJOS, 2005), a produção vocal é fundamentalmente resultado da mobilidade e tonicidade dos músculos participantes de sua produção, os quais são comandados pelo sistema nervoso central (SNC).
No entanto, a voz não deve ser considerada apenas como uma mera atividade laríngea comandada pelo SNC, mas também como um processo flexível e dinâmico, que sofre e gera impactos nas três dimensões do ser: social, física e emocional, ou seja, em seu construto bio-psico-social.
Muitos são os profissionais que a utilizam como instrumento de trabalho: cantores, atores, professores, radialistas, políticos, vendedores, telefonistas, secretários. A estes chamamos de profissionais da voz. Entretanto, qualquer alteração que venha a afetar a produção natural da voz nestes indivíduos, tende a comprometer diretamente o seu rendimento econômico e profissional.
Transtornos vocais em professores costumam limitar seu desempenho em sala de aula, pois para que haja uma boa compreensão da mensagem falada, é necessário que a qualidade vocal de quem a emite seja extremamente adequada para o receptor, neste caso, o aluno. Além de se pôr outro importante aspecto: "os distúrbios vocais em professores, assim como em todos os indivíduos que dependem da voz como meio de vida, costumam produzir sentimentos de insegurança, pois geram graves problemas funcionais e socio-econômicos" (SILVA, 2006, p. 69).
Diante de todas estas situações, fica clara e evidenciada a importância do bom uso profissional da voz para quem a utiliza em seu cotidiano profissional. Sendo assim, buscar-se-á além de um trabalho de conscientização dos docentes envolvidos, a identificação das possibilidades de intervenção fonoaudiológica, a fim de subsidiar um bom rendimento e longevidade vocal no trabalho, interferindo diretamente sobre sua qualidade de vida.
REFERENCIAL TEÓRICO
A VOZ HUMANA
A vocalização é o principal instrumento de comunicação entre os seres humanos falantes, pois é através desta que conseguimos externar nossos principais pensamentos, emoções e idéias.
A voz é uma característica humana que está intimamente relacionada com a necessidade do homem de se agrupar, objetivando uma comunicação mais efetiva com a sociedade. Pode ser descrita como um produto de nossa evolução anatomo-fisiológica, isto é, como um trabalho conjunto do SNC e dos sistemas respiratório e disgestório, os quais atuam harmonicamente para ocorrer a produção vocal.
De acordo com a Enciclopédia Livre WIKIPÉDIA (2005), é importante salientarmos que as pregas vocais (PPVV) são dois pares de músculos que "primordialmente não foram feitos para o uso da voz", mas sim para atuarem muscularmente nas funções de respiração, alimentação e esfíncter laríngeo.
Para Behlau e Pontes (1995), a voz pode ser considerada como um som que é produzido pelas pregas vocais à passagem do ar através da laringe e que sofre diversas modificações pelas cavidades situadas acima delas, ou seja, as cavidades de ressonância. O controle fonatório dependerá de algumas características próprias desta função:
- sensações, percepção e atenção corporal de cada indivíduo no momento da sua vocalização peculiar;
- variação de intensidade/loudness (forte ou fraca);
- variação de altura/pitch (grave ou aguda);
- ressonância (permite que a voz possa se projetar no ambiente de maneira mais eficaz) e
- timbre (caracteriza a individualidade da voz no momento da emissão).
Em um sentido mais completo e amplo, "a voz existe como uma das mais diversas formas de comunicação do indivíduo com o meio exterior, particularmente com seus semelhantes, tornando-se uma das extensões mais fortes da personalidade" (NASCIMENTO e DOS ANJOS, 2005).
USO PROFISSIONAL DA VOZ
O profissional da voz é aquele que usa a voz no seu trabalho.
Para Boone & McFarlane (1994 apud FERREIRA, 1998), o profissional da voz é aquele que depende dela para ganhar o sustento. Assim existem profissões que fazem daqueles que a exercem um profissional da voz porque requer do indivíduo o uso excessivo da voz, tornando-a seu instrumento de trabalho.
A voz é o instrumento de trabalho de aproximadamente 25% da população economicamente ativa, que dela depende todos os dias para alcançar o sucesso em suas ocupações, de acordo com Regina Penteado (1995).
O termo profissional da voz, de acordo com Martin (2004), é eventualmente utilizado para determinar os indivíduos cuja profissão e emprego dependem de um uso eficiente e efetivo da voz. Exemplos de profissionais que têm na voz seu principal instrumento de trabalho são cantores, atores, professores, radialistas, políticos, vendedores, telefonistas, secretários, empresários, padres/pastores, advogados, controladores de tráfego aéreo.
Desse modo, faz-se necessário diferenciar a voz profissional do uso profissional da voz, segundo Pedro Bloch (2002), uma pessoa que usa a voz em sua profissão, quando apresenta alguma disfunção vocal, tem uma disfonia relacionada à ocupação. Em contrapartida, em virtude da voz que emprega na profissão que exerce, a disfonia ocasionada por fatores externos que obriguem o profissional a fazer abuso vocal ou que irritem as pregas vocais, é denominada disfonia profissional.
Assim, o usuário profissional da voz pode ser descrito como uma pessoa para quem uma alteração vocal, mesmo que moderada, impeça o desempenho ocupacional adequado.
A voz do professor é vulnerável ao tempo e ao uso inadequado. As condições de sua rotina de vida e trabalho, situações estressantes e fatores de risco para a sua saúde vocal e geral devem fazer com que seja tratada como uma voz profissional.
VOZ DO PROFESSOR
Sabe-se que o professor é um dos profissionais com maior uso ocupacional da voz, o que significa que a voz é uma ferramenta fundamental para a execução de sua atividade profissional, pois representa o elo de comunicação humana para a transmissão de informações que tanto podem facilitar como dificultar a decodificação da mensagem.
A diferença entre a voz profissional e a voz ocupacional, consiste no fato que esta ultima não realiza um treino prévio e específico para sua utilização. Assim, ressalta-se que o mau uso ou abuso da voz ocupacional pode acarretar em uma disfonia profissional (FERREIRA, 1975).
Segundo a OMS (apud NAGANO e BEHLAU, 2001), as enfermidades que afetam o trabalhador, eventualmente estão associadas com as condições adversas advindas das mais variadas modalidades de trabalho.
Para Bruneto (1986 apud NAGANO e BEHLAU, 2001), ao fazerem uma análise dos diferentes fatores que proporcionam uma alteração vocal em docentes constatou-se, como principais determinantes a pressão ambiental, fatores socioeconômicos, instabilidade no trabalho e problemas familiares.
Do mesmo modo, Bloch (1979 apud FERNANDES, 1998), considera que o estilo de vida, o estresse e a quantidade de compromissos, levam a voz do professor a ser carregada de sentimentos, o que, por sua vez, a torna estrangulada e tensa.
Já Serrail (1979 apud FERNANDES, 1998) ressalta a falta de conhecimento acerca do comportamento e funcionamento vocal desses profissionais, fazendo mau uso e abuso da voz diariamente. E lista entre as causas determinantes de alterações vocais nesses profissionais, as falsas vocações, o ambiente interno e externo desfavorável, a baixa remuneração, o longo percurso percorrido até chegar ao trabalho e a fadiga excessiva.
Smith et al. (1997) e Freeman e Fawcus (2004) apóiam a visão de que a classe docente se encontra no grupo de alto risco de incapacidade em decorrência de alterações vocais e este problema de saúde pode incorrer em dificuldades econômica relacionadas ao trabalho.
Devido à alta demanda vocal e à falta de orientações sobre os cuidados com a voz, esta classe de profissionais apresenta grandes chances de problemas vocais, tornando-se grupo de risco para distúrbios da voz. Podendo-se inclusive, considerar a disfonia em docentes como uma doença profissional e social, que venha a reduzir ou até mesmo restringir o exercício de sua profissão.
Segundo Martz (1987 apud FERNANDES, 1998), uma considerável quantidade de professores usa a voz para impor respeito, demonstrando firmeza e autoritarismo frente à classe discente, o que traz como conseqüência uma alteração vocal.
Pinto e Furck (apud FERREIRA, 1998) referem que os professores normalmente apresentam como características vocais: voz abafada, sem projeção, padrão respiratório inadequado, tensão na região cervical, postura corporal inadequada, abuso vocal na tentativa de superar o ruído da sala de aula, além de enfrentar uma longa jornada de trabalho.
De acordo com Boone e McFarlane (1994 apud SILVA, 2006), exacerbar a voz na tentativa de superar o ruído ambiental pode exercer efeitos negativos sobre o funcionamento laríngeo, bem como sobre a produção vocal.
As alterações vocais decorrentes do uso incorreto da voz dentre os professores se processam de forma lenta e gradativa na medida em que se utilizam de ajustes compensatórios, de tal maneira que os transtornos vocais atingem níveis muito altos, pois suas freqüentes licenças para repouso vocal comprometem a qualidade de ensino.
Penteado et al. (2005), afirmam que a voz é fator preponderante para o desempenho profissional, visto que a atuação do professor em sala de aula, especialmente em se tratando deste como trabalhador, compromete a relação professor-aluno e o processo ensino-aprendizagem.
Assim ressalta-se que, a compreensão da influência destes fatores sobre a voz do professor é imprescindível no desenvolvimento de recursos que reduzam os altos índices de disfonia nessa categoria, pois o professor que tem conhecimento dos fatores prejudiciais ao seu desempenho vocal está apto para modificar e transformar esta realidade, maximizando o uso potencial da sua voz.
METODOLOGIA
Este trabalho foi desenvolvido com 21 professores da Faculdade Santa Terezinha - CEST, no período de setembro e outubro do corrente ano, os quais participaram voluntariamente do estudo, de acordo com sua conveniência e disponibilidade.
Todos os participantes receberam informações detalhadas sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO B), atendendo às exigências da Resolução 196/96, do CNS, para a realização de pesquisas envolvendo seres humanos.
Os critérios de exclusão aplicados à participação no estudo foram:
- o professor ser fonoaudiólogo ou
- realizar ou ter realizado qualquer tipo de procedimento fonoaudiológico direcionado especificamente à área da voz.
Os dados foram coletados através do preenchimento do protocolo PPAV (ANEXO A), traduzido para o português por Behlau e Oliveira (2007), o qual consiste de 28 questões, divididas em cinco domínios: auto-percepção do paciente da severidade do problema vocal, efeitos da alteração vocal no trabalho, na comunicação diária, na comunicação social e na manifestação das emoções.
O preenchimento do questionário foi realizado pelo participante, obedecendo-se à seguinte instrução: "Para cada resposta, o senhor/a senhora deverá assinalar um X nesse traço. O lado esquerdo vai ser considerado como não afeta e o lado direito, como sempre afeta".
Para determinação o impacto vocal, o valor assinalado foi medido com régua e a distância em centímetros considerada como o impacto vocal individual para cada item, podendo as respostas variar entre 0 (zero) e 10 (dez).
Desta forma, no primeiro domínio a pontuação máxima poderia atingir dez pontos, no segundo, quarenta, no terceiro, cento e vinte, no quarto, quarenta e, no quinto, setenta pontos, permitindo um escore máximo de 280 pontos.
Dois escores adicionais foram calculados, a chamada pontuação de limitação de atividades (PLA) e a de restrição de participação (PRP), somando-se a pontuação das primeiras questões dos domínios 2, 3 e 4, para o cálculo do PLA, e os escores das segundas questões desses mesmos domínios, para determinação da PRP.
Os dados foram analisados qualitativa e quantitativamente, considerando-se:
1. Os escores atingidos pelo PPAV. Utilizou-se 5, ou 50%, de prevalência para definir os impactos positivo (<5) e negativo (>5) e
2. Determinaram-se os escores nos diversos domínios, avaliando-se, conforme descrito no item anterior, os impactos nos domínios individuais.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram entrevistados 21 professores da Faculdade Santa Terezinha/CEST, sendo 12 mulheres e 9 homens.
Em virtude da classificação proposta observou-se que 88,1% dos profissionais definiram o impacto vocal sobre o trabalho como positivo, segundo os critérios adotados neste estudo. O gráfico 1 apresenta as porcentagens de respostas com escores menores, maiores e iguais a 5, considerado para análise como "impacto limítrofe", para cada item do questionário.
GRÁFICO 1 - Porcentagem de respostas com impactos positivo, limítrofe e negativo, de acordo com os critérios estabelecidos para este estudo, às 28 questões do PPAV entre os docentes da Faculdade Santa Terezinha/CEST.
O escore médio total (somatório dos escores nos diversos aspectos) atingido pelo protocolo PPAV foi de 38,8, diferente do relatado em indivíduos disfônicos por Ma e Yu (2001), suas autoras, em um estudo realizado com indivíduos disfônicos e grupo controle, no qual os escores médios totais foram 114,1 e 6,4, respectivamente.
Como não foi possível a realização da avaliação percepto-auditiva, proposta no projeto inicialmente qualificado, devido ao não comparecimento dos docentes para registro da voz, o grupo estudado não pode ser categorizado como "disfônico" ou "não-disfônico".
Segundo Picolotto (1998), "na formação do professor, observamos que, independente do seu nível (pré, I, II ou III grau), em nenhum momento é dada atenção ás questões relacionadas com o uso vocal, embora a voz venha a ser seu principal instrumento de trabalho".
No decorrer do estudo, observou-se que a maioria dos professores pesquisados citou em conversa informal que: "talvez houvesse uma necessidade de existir uma disciplina específica sobre orientações vocais ao professor". Contraditoriamente, o escore atingido pelo questionamento acerca de O quanto é severo o seu problema de voz agora? (questão 1), o escore médio foi de 2,9, discrepante tanto para o grupo disfônico (6,2) quanto para o grupo controle (0,9) do estudo original.
De acordo com a proposta do estudo, apenas 23,8% (5 professores) apresentaram impacto maior que 5, definindo uma autopercepção da severidade da desordem vocal como negativa.
De acordo com Bloch (1963 apud FERNANDES, 1998), "é um atentado ao bom senso" um professor não receber um tratamento intenso e adequado, ressaltando que um professor rouco também gerará uma classe com casos de rouquidão.
A tabela 1 apresenta os escores médios das questões do PPAV que lidam com impacto da desordem vocal no aspecto Efeitos no Trabalho.
TABELA 1 - Impactos vocais obtidos no aspecto Efeitos no Trabalho, obtidos através de resposta ao protocolo PPAV (BEHLAU e OLIVEIRA, 2007).
QUESTÃO IMPACTO MÉDIO IMPACTO
<5 =5 >5
2 4,4 8 2 7
3 0,7 20 0 1
4 0,9 20 1 0
5 1,1 20 0 1
MÉDIA 1,8
Pinto e Furk (1993 apud FERNANDES, 1998) observam que nos cursos de Magistério e Pedagogia não existe nenhum subsidio para o uso da voz, sendo muito importante à divulgação desta preparação vocal, pois este problema pode interferir na atuação direta em sala de aula.
Uma pesquisa realizada com docentes de uma determinada escola no Município de Caçapava (São Paulo), de nível pré, I, II e III graus, aponta que as principais queixas vocais encontradas são ardor, rouquidão e cansaço vocal (BATISTA e FERREIRA, 1993 apud FERNANDES, 1998).
Picolotto (1998) cita que no decorrer do tempo, as alterações vocais interferem no exercício profissional, causando assim muitos prejuízos ao professor, como, por exemplo, a necessidade de licença ou readaptação em outra função dentro da escola. Os dados deste estudo mostram que 28,6% (6 professores) dos entrevistados definiram que Seu trabalho é afetado pelo seu problema de voz? (questão 2), estabelecendo uma relação sutil entre o tempo de trabalho docente e o impacto do uso da voz.
A questão 3 (Nos últimos 6 meses você tem pensado em mudar seu trabalho devido ao seu problema de voz?) remete a um pensamento de como pode ser frustrante para este professor ter que refazer uma escolha profissional e se deparar com um mundo para o qual não esteja preparado, principalmente em decorrência da falência de seu principal instrumento de trabalho. Contudo, somente 4 entrevistados (19,1%) estabeleceram impacto maior que 5 deste item no protocolo de pesquisa.
Entretanto, segundo Silva (2006), há uma alta prevalência de alterações vocais que determinam licenças e afastamentos de sala de aula, a qual faz com que os docentes sejam readaptados para exercerem outros cargos ou funções nas próprias escolas, deixando de reger classes em decorrência de seus problemas vocais, levando ao prejuízo óbvio do processo ensino-aprendizagem, pois interfere na sua continuidade e na relação professor-aluno.
Os distúrbios vocais em professores, assim como em todos os indivíduos que utilizam e dependem da voz como meio de vida, costumam produzir algum tipo de insatisfação, insegurança e até mesmo, em casos extremos, o desligamento da instituição que o contratou, por "ineficiência" ou por não adaptação ao cargo ou função exercida. Sendo assim, as alterações de voz prejudicam a atuação do professor em sala de aula, "pela provável interferência na clareza da emissão e no modelo lingüístico que se refletirá na aprendizagem oral" do aluno (SILVA, 2006, p.69).
À questão 4 (O seu problema de voz criou alguma pressão em seu trabalho?) não apresentou respostas positivas, ou seja, o impacto da voz sobre a pressão exercida pelo empregador não decorre nesse momento da(s) alteração(ões) vocal(is) propriamente dita. Informalmente, observa-se que professores e profissionais da voz, de modo geral, desenvolvem estratégias de (auto) preservação vocal, o que pode interferir, inclusive, na adequada auto-percepção da alteração vocal, uma vez que o quadro permanece "mascarado" pela utilização de fatores externos ao contexto escolar ou de trabalho. Este fator é apontado por Andrade (1994); Behlau (1994) e Servilha (1995) como um limitante à carreira e pode favorecer uma notória queda profissional, econômica e emocional neste sujeito.
Yoarzún et al. (1984 apud FERNANDES, 1998) realizaram um trabalho com 49 sujeitos, concluintes do curso de Pedagogia, e, em sua maioria, já inseridos no trabalho docente, no qual mais de 80% apresentaram alterações de respiração, ataque vocal, registro, uso de ressonadores, coordenação pneumofonoarticulatória e problemas de tensão muscular cervical. Estes autores relatam, ainda, que, de certa forma, é muito importante estabelecer alguns critérios para o ingresso na carreira docente.
De acordo com esta afirmação, questiona-se o quanto uma alteração vocal pode interferir na decisão de se optar pela profissão docente?
Apenas 4,8% (1) dos entrevistados percebem a influência da desordem vocal no desempenho de suas atividades profissionais (questão 5 - Nos últimos 6 meses, o seu problema de voz tem afetado suas decisões para o futuro de sua carreira?) como negativa, segundo os critérios adotados neste estudo (impacto >5).
Falar, cantar, dar aulas e várias outras "tarefas fonatórias" são executadas ao longo da jornada diária, desde o acordar, quando se boceja (geralmente sonorizando), mas qual é o efeito dessas "tarefas fonatórias" sobre a comunicação diária de um docente.
A necessidade de repetição da mensagem e da evitação da comunicação social (questões 6 - As pessoas pedem para você repetir o que acabou de dizer devido ao seu problema de voz? - e 7 - Nos últimos 6 meses você alguma vez evitou falar com as pessoas devido ao seu problema de voz?) são situações que se põem no cotidiano de qualquer profissional da voz. E para o professor universitário? Qual é o impacto dessa condição comunicativa? Ou seja, qual é o efeito de uma desordem vocal sobre a "comunicação diária"?
A tabela 2 apresenta os escores médios das questões do PPAV que tratam do impacto da desordem vocal no aspecto Comunicação Diária.
TABELA 2 - Impactos vocais obtidos no aspecto Comunicação Diária, obtidos através de resposta ao protocolo PPAV (BEHLAU e OLIVEIRA, 2007).
QUESTÃO IMPACTO MÉDIO IMPACTO
<5 =5 >5
6 2,3 16 3 2
7 1,2 20 0 1
8 1,1 20 0 1
9 0,8 21 0 0
10 1,2 19 1 1
11 0,7 20 1 0
12 2,6 15 3 3
13 2,1 17 1 3
14 2,2 16 5 0
15 1,1 19 2 0
16 1,8 17 4 0
17 1,3 19 2 0
MÉDIA 1,5
Segundo Pinho e Pontes (2001), se o professor possuir alguma alteração vocal de nível moderado a severo é que o impacto negativo vai ser nitidamente (auto)percebido, caso contrário pode passar despercebido, embora, tanto em sala de aula como em uma conversa espontânea, sua voz não transmita o conteúdo da mensagem.
Os resultados encontrados por Serrail (1979, apud PICOLOTTO, 1998) definem como fatores determinantes dos problemas vocais na vida diária do professor, o desconhecimento sobre o comportamento vocal desses profissionais e o esforço diário decorrente da utilização vocal contínua. Dentre os entrevistados, apenas 3 apresentaram impacto menor que 5, sendo 2 (9,5%) na questão 6 e 1 (4,8%) na questão 7, o que pode, como referido acima, estar relacionado às estratégias de saúde vocal adotadas, mas também pode, refletir o pequeno ou baixo grau de consciência ou atenção dispensado pelo professor universitário à voz, haja vista que, nem sempre, essa é a sua principal fonte de renda.
Quando questionados se as pessoas teriam dificuldade em entendê-los no telefone devido ao problema de voz ou se nos últimos 6 meses teriam reduzido o uso do telefone devido ao problema de voz (questões 8 e 9), apenas 1 (4,76%) entrevistado definiu o impacto vocal desta tarefa como negativo. Embora muitos deles tenham relatado, em conversa informal, não ter muito tempo disponível para utilizar o telefone, devido à carga-horária docente a ser cumprida, justificando parcialmente a baixa prevalência de respostas encontrada e, como não há relatos na literatura consultada sobre este aspecto da utilização da voz por docentes, não se pode estabelecer correlações consistentes.
Pereira, Santos e Viola (1995 apud FERNANDES, 1998) realizaram uma pesquisa com 76 professores universitários da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP) e observaram que 83,3% destes profissionais apresentavam alterações vocais, devido ao aumento de intensidade em sua fala, por conta do grande barulho existente no ambiente de trabalho. Os mesmos autores constataram ainda que a presença de alterações vocais apresentam uma relação de proporcionalidade positiva com o ruído no ambiente.
Neste estudo, de acordo com a classificação proposta, a prevalência de impacto vocal negativo das desordens de voz sobre a comunicação em ambientes silentes (questões 10 e 11) não se mostrou significativa, pois apenas 4,8% (1) dos entrevistados o referiram. No entanto, quando se avaliou este aspecto em ambientes ruidosos (12 e 13), observa-se que 14,3% (3 por questão) dos entrevistados referiram impactos vocais negativos, indicando concordância com os achados de autores como Pereira, Santos e Viola (1995).
Na profissão docente, a voz é fator relevante para o desempenho profissional e para a atuação do professor em sala de aula, especialmente enquanto componente constitutivo da identidade do professor como trabalhador, do impacto do docente sobre o discente e componente do processo ensino-aprendizagem (PENTEADO, 2003; PENTEADO e BICUDO-PEREIRA, 2003; GRILO, 2004, p.01)
O conteúdo da mensagem passada por este docente depende intimamente de como ele consegue explorar o contexto lingüístico, por meio da expressão vocal, o qual é complementado por sua atuação profissional, manifestando-se na sua comunicação diária. A busca da utilização da voz como constituinte do processo comunicativo deve estar complementada pela percepção do papel da voz na transmissão da mensagem. Essa (auto)percepção não atingiu significância neste estudo (questões 14 a 17), pois, diante dos relatos obtidos formal e informalmente, o que pode estar correlacionado às mesmas estratégias de (auto)preservação vocal anteriormente comentadas.
Advogados, músicos, jornalistas, operadores de telemarketing, radialistas e, principalmente, os professores têm como ferramenta de trabalho, a voz. Não obstante a imprescindibilidade da voz, note-se que este não é o único instrumento destes profissionais, embora seja o que está em maior evidência. Justamente essa voz, vista assim de forma tão abrangente, que necessita de cuidados por parte de seu usuário, pois seu uso define impactos importantes em sua qualidade de vida social, profissional e econômica.
Segundo Martz (1987), a voz do docente acompanha seu trajeto social, sabendo que, para sua utilização em determinado fim, existem conseqüências sociais, caso a produção natural da voz não estabeleça seu papel primário, ou seja, a transmissão da mensagem oral.
Ao se avaliar o impacto das desordens vocais sobre os "efeitos na comunicação social" (questões 18 a 21) escore médio atingido foi 0,83, o quê, de acordo com os critérios deste estudo, define um impacto positivo (tabela 3). O escore médio encontrado ficou abaixo, inclusive, do determinado pelas autoras do protocolo PPAV (1,2) para este aspecto em indivíduos não-disfônicos. Uma possível justificativa pode ser a pequena/baixa percepção dos docentes da Faculdade Santa Terezinha/CEST sobre o aspecto vocal para a comunicação em sociedade ou a não priorização deste aspecto da comunicação ou não, ainda, a não definição adequada deste aspecto comunicativo.
TABELA 3 - Impactos vocais obtidos no aspecto Comunicação Social, obtidos através de resposta ao protocolo PPAV (BEHLAU e OLIVEIRA, 2007).
QUESTÃO IMPACTO MÉDIO IMPACTO
<5 =5 >5
18 1,1 19 2 0
19 0,6 20 1 0
20 0,9 20 1 0
21 0,7 20 1 0
MÉDIA 0,8
Na pesquisa de Fernandes (1998, p.107) observa-se que os professores que foram selecionados adquiriram problemas vocais devido ao alto grau de utilização da voz e que esta utilização estava diretamente relacionada à condição econômica. Com isso sua opinião final, juntou-se ao discurso de Serrail e Bloch (1979) que relataram que a qualidade de vida social, no que se refere à utilização da voz como principal instrumento de comunicação oral, permanece abalada devido às condições de vida, à agitação e à quantidade de compromissos que estes docentes possuem.
Para Nascimento e dos Anjos (2005) "a voz se torna uma das extensões mais fortes da personalidade". A que se atribui esta afirmação? Talvez ao grande domínio que a voz possui em demonstrar para o ouvinte a condição emocional, o "estado de espírito" do sujeito e a veracidade do momento vivido no grupo social. Entretanto, observa-se o efeito que a voz traz na personalidade do ouvinte, levando-o a permanecer abalado com sua "personalidade vocal".
Behlau e Pontes (1999) afirmam que "a voz humana expressa pensamentos, emoções, sentimentos e opiniões", sendo assim, é correto afirmar que o docente com uma voz alterada, irá possuir momentos de alteração emocional em seu estado psicossocial. A tabela 4 apresenta os impactos vocais observados na análise das questões 22 a 28, "efeitos na emoção". Observa-se, mais uma vez que o impacto das desordens vocais sobre a emoção foi menor que o descrito pelas autoras do protocolo (1,0 contra 2,6), o que se justifica pelo trabalho contínuo com os valores médios e pela não exclusão, neste estudo de indivíduos "disfônicos" e "não-disfônicos".
TABELA 4 - Impactos vocais obtidos no aspecto Emoção, obtidos através de resposta ao protocolo PPAV (BEHLAU e OLIVEIRA, 2007).
QUESTÃO IMPACTO MÉDIO IMPACTO
<5 =5 >5
22 1,6 19 1 1
23 1,0 20 1 0
24 0,5 21 0 0
25 2,5 16 2 3
26 0,2 21 0 0
27 0,7 20 1 0
28 0,7 21 0 0
MÉDIA 1,0
Para Silva (2006, p. 69), "os distúrbios vocais em professores geram graves problemas profissionais, econômicos e emocionais". Contudo, no aspecto Efeitos na Emoção percebe-se que apenas a questão 25 (Você tem uma baixa auto-estima devido ao seu problema de voz?) atingiu itens consideráveis, embora não significativos (14,3%) entre os entrevistados. A partir desta informação pode-se questionar: "o docente da Faculdade Santa Terezinha não se percebe do papel da voz na sala de aula?" ou "o protocolo PPAV é sensível para a população estudada?" ou, ainda, "um trabalho de sensibilização do papel da voz entre os professores universitários seria de fundamental importância para que se perceba a função da voz na transmissão da mensagem"?
Devido á dificuldade de avaliação encontrada pelos pesquisadores para a realização do registro de voz dos participantes, alguns dados não se mostraram compatíveis com os descritos na literatura, principalmente, no tocante à separação entre indivíduos "disfônicos" e "não-disfônicos", por ser o foco da maioria dos estudos realizados.
Em indivíduos disfônicos, o cálculo das PLA e PRP mostram-se muito discrepantes, em relação aos definidos pelas autoras, tanto para um grupo quanto para o outro (41,5 e 39,1, respectivamente), enquanto, neste estudo os valores médios encontrados foram de 7,8 e 4,3, não se encontrando na literatura dados que pudessem oferecer qualquer margem de segurança para maiores comentários.
O grande mérito do presente estudo reside em dar início na Faculdade Santa Terezinha/CEST a um processo de conscientização sobre o comportamento vocal de seus docentes, sendo ainda necessária a definição de outras estratégias de ação que seus docentes se engajem em trabalhos direcionados aos cuidados com seu instrumento de trabalho, a voz.
CONCLUSÃO
Os docentes da Faculdade Santa Terezinha/CEST precisam desenvolver um maior grau de consciência sobre suas vozes e sua utilização na sala de aula, pois apresentam respostas pouco consistentes quanto à presença ou ausência de desordens vocais em seu cotidiano de trabalho, não reconhecendo, inclusive, as interferências deste cotidiano sobre a voz na sala de aula ou em aspectos específicos de sua comunicação.
A realização de trabalhos que permitam o aprendizado de técnicas, manobras ou estratégias para a (auto) preservação da voz pode se constituir em uma excelente ferramenta para o trabalho com estes profissionais, haja vista a sobreposição de fatores de risco para o desenvolvimento de desordens vocais no professor, que se torna bastante vulnerável às "disfonias funcionais".
Assim, com este estudo, mostrou-se de forma incipiente a carência de conhecimentos sobre o funcionamento do trato vocal que permeia a atuação do professor e a pouca relevância destinada a este aspecto de sua carreira, que pode, secundariamente, tornar-se um dos fatores de sucesso na docência.
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